Tontura não passa. O que pode ser?
“Doutor, minha tontura nunca mais foi embora.” Esta é uma das queixas mais comuns do consultório — e você, paciente, não está sozinho nessa.
Enquanto a maioria dos pacientes apresenta crises de tontura e vertigem que duram horas e dias, mas que se resolvem para não voltar mais, existe um grupo importante de pacientes cuja tontura persiste por semanas, meses ou até anos. E isso não significa, necessariamente, que exista uma doença grave.
A tontura crônica é um dos sintomas mais comuns. Ela pode surgir após quadros agudos que, mesmo depois de se resolverem, formam um pano de fundo para uma doença crônica, como a hipertensão. Labirintite, neurite vestibular e a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) são precipitantes comuns dos quadros persistentes. Em muitos pacientes, entretanto, o problema deixa de ser apenas do labirinto e passa a envolver a forma como o cérebro processa as informações do equilíbrio.
Hoje sabemos que duas das causas mais frequentes de tontura persistente são a Migrânea Vestibular (que muitas vezes ocorre sem a parte da dor de cabeça) e a Tontura Postural Perceptual Persistente (PPPD). Ambas são doenças reconhecidas internacionalmente, com critérios diagnósticos, e são tratáveis. Em outros pacientes, doenças neurológicas, alterações do cerebelo, neuropatias, distúrbios visuais e até alguns medicamentos podem produzir sintomas semelhantes.
Por que a investigação precisa ser cuidadosa
Embora muitas pessoas associem tontura apenas ao labirinto, sempre devemos considerar doenças neurológicas que podem produzir sintomas semelhantes. Grande parte do diagnóstico é feita por meio da história clínica e do exame físico. Em nossa avaliação, o exame dos movimentos dos olhos é uma das ferramentas mais importantes, pois eles refletem diretamente o funcionamento do labirinto e das conexões cerebrais responsáveis pelo equilíbrio.
Dependendo da suspeita clínica, exames complementares como a video-oculografia (VOG), o video Head Impulse Test (vHIT), testes vestibulares, ressonância magnética e exames laboratoriais podem ser necessários para confirmar o diagnóstico e direcionar o tratamento.
A boa notícia: a maioria dos pacientes melhora
O tratamento da tontura crônica raramente depende de apenas um medicamento. Frequentemente utilizamos uma combinação de mudanças de hábitos, reabilitação vestibular, atividade física, exercícios que movimentam a cabeça, suplementação quando indicada, tratamento da migrânea vestibular, controle da ansiedade e, em alguns casos, medicamentos específicos. Hoje existe uma grande quantidade de evidências mostrando que pacientes com PPPD e migrânea vestibular apresentam melhora importante quando o tratamento é individualizado.
Minha maior preocupação, entretanto, não é apenas tratar a tontura. É chegar ao diagnóstico correto. Vejo frequentemente pacientes que recebem o diagnóstico genérico de “labirintite”, permanecem meses utilizando medicações que pouco ajudam e acabam atrasando o tratamento da verdadeira causa do problema.
O que todos devem saber é que, na maioria dos casos, existe tratamento — e o primeiro passo é entender exatamente por que o cérebro e o sistema vestibular deixaram de funcionar em harmonia.
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