Hipertensão intracraniana idiopática, pseudotumor cerebral e papiledema: o que você precisa saber
Papiledema não é sinônimo de hipertensão intracraniana idiopática — e alguns achados de ressonância também não. Entenda por que o diagnóstico precisa de cautela.
Alguém pode ter lhe dito que, ao examinar o fundo de seus olhos, encontrou sinais de papiledema e que você teria hipertensão intracraniana. Em outro cenário, por algum motivo, você pode ter realizado uma ressonância magnética da cabeça e, ao ler o laudo, encontrado a descrição: “sela túrcica parcialmente vazia, sugestiva de hipertensão intracraniana”. Veja bem: papiledema não é sinônimo de hipertensão intracraniana idiopática, assim como alguns achados da ressonância também não são.
Apesar de esses sinais poderem fazer parte da síndrome clínica denominada Hipertensão Intracraniana Idiopática — na qual, após a exclusão de causas graves como tumores, não se identifica uma causa definida —, esses achados, quando vistos de forma isolada, não devem ser considerados sinônimo da doença.
A síndrome clínica da Hipertensão Intracraniana Idiopática é um diagnóstico importante, que pode impactar significativamente a vida dos pacientes e, justamente por isso, deve ser estabelecido com cautela, segurança e suporte dos exames complementares. Dandy foi o primeiro a descrever os critérios diagnósticos da doença, que incluem, em conjunto, papiledema, aumento da pressão liquórica e exames de neuroimagem sem alterações que expliquem outra causa.
Uma vez confirmado, o tratamento
Hoje observamos diversos pacientes encaminhados com essa suspeita. Uma vez confirmado o diagnóstico, esses pacientes precisam de tratamento, que pode envolver redução de peso, medicações que diminuem a produção do líquor e, em alguns casos, cirurgias, como a fenestração da bainha do nervo óptico ou a derivação ventrículo-peritoneal. A doença é tratável e, com diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento regular, a maioria dos pacientes com casos leves ou moderados preserva a visão. No entanto, casos avançados, quando não tratados a tempo, podem evoluir com perda visual grave e permanente.
Minha maior preocupação: o diagnóstico incorreto
Enquanto o diagnóstico é baseado em critérios bem definidos e os tratamentos são bem estabelecidos, minha maior preocupação, como neuro-oftalmologista, é o diagnóstico incorreto, que acaba levando muitos pacientes a exames e tratamentos desnecessários, além de retardar o tratamento da condição verdadeira.
Discutiremos futuramente, com mais detalhes, as condições que podem imitar a Hipertensão Intracraniana Idiopática. Por ora, vale reforçar alguns pontos importantes. Primeiro, devemos sempre diferenciar o edema verdadeiro de papila do pseudoedema de papila. Além disso, achados da ressonância magnética frequentemente associados à hipertensão intracraniana — como sela túrcica vazia, estenose dos seios transversos e alargamento das bainhas do nervo óptico — também podem ser encontrados em pessoas saudáveis e, analisados de forma isolada, podem levar o colega médico ao erro. O mesmo vale para sintomas comuns, como a cefaleia.
Portanto, o papel do neuro-oftalmologista não é apenas acompanhar e tratar pacientes que realmente apresentam a doença, mas, antes de tudo, estabelecer ou excluir corretamente esse diagnóstico. As opções de tratamento são cada vez maiores e mais eficazes. Entretanto, o peso de uma investigação extensa, de exames desnecessários e de um diagnóstico incorreto pode comprometer significativamente a qualidade de vida do paciente.
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